O médico extraordinário

No filme Um Golpe do Destino o médico Jack McKee, altamente capacitado tecnicamente e respeitado no meio acadêmico, é diagnosticado com um câncer de garganta e, ao ser colocado no lugar do enfermo, obrigado a refletir sobre o tamanho da insensibilidade com que tratava seus pacientes antes de adoecer. Motivado pelo próprio sofrimento, passa por um ato de contrição e percebe que se colocava numa posição de semideus, protegido por uma carapaça rígida, que o impedia de enxergar alguém que não fosse ele próprio. Por fim, o médico começa a criar novas concepções sobre o sistema de saúde e chega a impor a seus residentes que passem por procedimentos médicos, como ferramenta pedagógica, para que os futuros especialistas, desde cedo, se tornassem mais humanos e empáticos.

Jack McKee percebeu, apenas após sentir na pele, que a Medicina promove uma espécie de vida artificial, com o médico ao centro, onde o dinheiro garante a ostentação, o status social potencializa o valor sexual de mercado e a autonomia do carimbo assume o controle absoluto da sua conduta moral. Sendo assim, o caminho que se projeta ao aprendiz torna quase impossível que um médico maduro consiga se colocar a serviço do outro a não ser que ele próprio experimente uma doença.

Pois é, às vezes eu acho que um probleminha de saúde poderia fazer mesmo bem aos médicos.

O médico saudável cresce na busca constante pelo bem-estar físico e material, correndo atrás da realização dos próprios desejos e caprichos, afastando-se do que seria uma vida verdadeira de serviço ao próximo. Vai para o trabalho pensando nas festas. Entra no hospital lembrando da vizinha bonita. Atende os pacientes como se fossem números. E, perto dos quarenta, acaba se tornando o médico extraordinário. Um sujeito rico, sedutor e dono do seu próprio nariz, que fala mal da Medicina apesar de enriquecer através dela. Suporta a rotina criada e acelera o último atendimento para não perder a aula de tênis. Superficialmente culto, com aquela arrogância típica de quem enriquece por fora – que, por exemplo, após pisar no Louvre já se posiciona como crítico de arte ou que por ter um bom cargo julga-se um analista político ou ainda que, após assistir um único concerto em Viena, torce o nariz para a música popular e, mesmo tendo uma amantezinha aqui e outra ali, no curso de apreciação de vinhos reforça, ao amigo somelier, que o problema do Brasil é o declínio moral do povão.

O médico extraordinário enxerga o seu trabalho como um verdadeiro ritual pagão em torno do próprio umbigo onde desligar-se de si mesmo fica bem difícil e muitas vezes só acontece de noite após umas boas doses de uísque ou de rivotril.

Mas será que é preciso que todo médico passe por algo tão doloroso para abandonar o culto a si mesmo? Ainda que a contrição de Jack McKee tenha impulsionado uma mudança benéfica na abordagem aos pacientes, será que um médico não pode crescer em humanidades durante o curso normal da sua existência?

Creio que pode. Na vida ordinária!

“Cumpre o pequeno dever de cada momento; faz o que deves e está no que fazes.” São Josemaria Escrivá

O dever do médico é servir. Sempre.

Se ainda na saúde você voltar os seus olhos ao outro, a vida cotidiana vai adquirir uma grandeza insuperável. 

Pobrezinhos dos médicos extraordinários!